14/04/2010

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. Então sabemos tudo do que foi e do que será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos. Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a verdade, os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à volta do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertamos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra, a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago

Sem comentários: